António Lobo Antunes: Tratado das Paixões Cinematográficas

 Anabela Dinis Branco de Oliveira

8º Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas

(18 a 23 de Julho - Santiago de Compostela, Espanha)

(Resumo)

Na memória estética do escritor, a paixão pelo cinema. No percurso ficcional, relações dialógicas, simbioses, transmutação de materiais literários e fílmicos.

O cinema como espaço de intelectualização no quotidiano das personagens: a presença de planos conhecidos, de sequências inesquecíveis, de rostos e de mitos cinematográficos e a sombra identitária de alguns realizadores como Fellini,  Hitchcock, Vincent Minelli ou Bob Fosse.

O paralelismo entre vozes narrativas e vozes over e off profílmicas e extraprofílmicas. Vozes múltiplas, descontínuas e fragmentadas na mesa de montagem cinematográfica. Vozes simultâneas estruturadas em montagem alternada, vozes em eixos temporais diferentes que projectam a montagem invertida, vozes prismáticas que provocam encadeamentos, correspondências temáticas, articulação dos vários conjuntos diegéticos e dos vários percursos espaciais e temporais e projectam a montagem paralela, na relação diegética com planos do universo cinematográfico e vozes que, na  construção metafórica, na associação de ideias e de depoimentos e na construção simbólica abrupta e arbitrária, são alavancas de reflexão e de metamorfose e projectam a montagem‑expressão eisensteiniana.

O olhar cinematográfico do narrador, o paralelismo entre a composição fragmentária das unidades descritivas e os movimentos da câmara cinematográfica. Personagens que olham e exprimem as suas emoções visuais através de uma câmara subjectiva que o narrador introduz, enquadrando a imagem, e projectando, por vezes, um regard à la caméra. Olhares que estabelecem molduras denunciadoras de uma forte escolha estética, com valorização nitidamente cinematográfica.  Travellings da escrita que seguem o percurso das personagens e dos narradores, através de caminhos interiores e exteriores, e acompanham as deslocações em espaços marcadamente diegéticos.

Objectos que surgem repentinamente, detalhes sobrevalorizados que denunciam a presença da câmara cinematográfica, o único olhar que se aproxima e se afasta, na organização de um zoom narrativo.

Sequências de palavras e de planos que estabelecem um inevitável paralelismo entre a composição fragmentária das unidades descritivas e os movimentos da câmara cinematográfica. Momentos em que a flexibilidade do olhar humano se alia à flexibilidade da montagem interna nas imagens cinematográficas. Narradores que olham em todas as direcções e em todas as velocidades; definem espaços que se cruzam, distâncias ópticas que aumentam e diminuem. Palavras sucessivamente encadeadas com planos gerais, planos de conjunto, planos médios, grandes planos, planos de detalhe e cruzamento de planos em fondu enchaîné. Textos literários que projectam uma polifonia óptica numa constante sucessão e metamorfose de imagens, intencionalmente trabalhadas, movimentadas e sobrepostas. Experiências sintácticas que adquirem o estatuto de experiências ópticas na indiscutível diferença entre o olhar humano e a câmara cinematográfica.

Imagens cinematográficas e literárias que projectam interpretações polifónicas e orientam o percurso dialógico na interpretação do Outro e na criação de novos imaginários, numa constante simbiose com a contemporaneidade.

Literatura e cinema inseparáveis e, exactamente, ao mesmo tempo, presentes na liberdade criativa, numa complexa teia dialógica, na simultaneidade dos veículos de significação que lhes são inerentes.

António Lobo Antunes entre vozes e imagens: momentos, sequências, exemplos, imagens, percursos, citações, títulos e pedaços de texto fílmico. Na leitura dos romances, materiais para um Tratado das Paixões Cinematográficas.

 

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